----- Original Message -----

From: <jciencia@sbpcnet.org.br>
To: <lele.rlk@terra.com.br>
Sent: Monday, October 29, 2001 6:13 PM
Subject: JC E-Mail, 1904, de 29 de outubro de 2001

> Jornal da Ciencia (JC E-Mail)
> ====================================================
> 29/outubro/2001 - No. 1904 - Noticias de C&T - Servico da SBPC
> ====================================================

13. Como distorcer o tempo: fisico Mario Novelo estuda possibilidade de fazer particulas voltarem ao passado

Salvador Nogueira escreve para a "Folha de SP":

Uma pergunta capciosa: e' o tempo que passa para os seres humanos ou sao os seres humanos que passam pelo tempo? Um sujeito mais apressado, ja' antecipando alguma artimanha logica, de pronto responderia: "A opcao correta obviamente e' a primeira -tal qual um rio, e' o tempo que passa por nos, rumando sempre numa unica direcao, para o futuro".

Nao e' bem assim. Por absurdo que pareca, sao as coisas que viajam pelo tempo, e nao o tempo que passa por elas. Essa peculiaridade sugere a possibilidade de inverter o sentido do tempo e fazer uma jornada ao passado. Trabalhando no problema esta' uma equipe liderada pelo fisico brasileiro Mario Novello, do Centro Brasileiro de Pesquisas Fisicas (CBPF), no RJ.

Quem sugeriu teoricamente essa possibilidade a partir da natureza contra-intuitiva do tempo foi Albert Einstein. Uma das coisas que sua teoria da relatividade mostra e' que a nocao "temporal" do tempo e' ilusoria.

Na realidade, o que os seres humanos entendem como sua passagem nada mais e' do que mais uma dimensao de um espaco nao com tres dimensoes (altura, profundidade e largura), mas com quatro. Estariam, portanto, todas as coisas sendo atiradas pelo tempo (assim como podem ser atiradas em qualquer dimensao espacial) numa direcao determinada, ao futuro - impulsionadas por uma forca chamada gravidade.

A gravidade, por sua vez, seria apenas um reflexo tridimensional de uma curvatura no espaco de quatro dimensoes, sendo o tempo uma delas. Essa curvatura e' produzida pela presenca de corpos macicos no espaco, como atomos, pessoas, planetas e estrelas.

A curvatura produzida no espaco por uma pessoa e' insignificante, mas para objetos maiores, como planetas e estrelas, o efeito e' bem notavel: o tempo anda mais depressa no alto de um predio do que no subsolo, em razao da distancia que guarda do centro da Terra (experimentos com relogios atomicos de alta precisao ja' demonstraram essa propriedade).

Em resumo: essa constatacao mostra que e' possivel ao menos alterar a velocidade com que as coisas viajam pelo tempo. A pergunta que surge a seguir e': se sao os humanos, entao, que transitam pelo tempo, e se e' possivel determinar em que ritmo eles fazem isso, seria possivel tambem escolher em que direcao eles viajam, invertendo a direcao do tempo?

Em tese, sim. Mas a quantidade de gravidade necessaria para alterar a estrutura do espaco-tempo nessa escala e' tao grande que seria inimaginavel conceber qualquer experimento que demonstrasse essa possibilidade.

Para alguma coisa viajar no tempo rumo ao passado, propelida pela forca gravitacional, seria preciso topar com um buraco negro - estrela extremamente macica que entrou em colapso -, ou com algum buraco de minhoca -ideia que ainda vive no plano especulativo da fisica e representa uma distorcao gravitacional que une dois pontos distantes do espaco-tempo.

Mais importante que encontra-los, seria preciso trespassa-los -e sobreviver para contar a historia. Trocando em miudos, o uso da gravidade nao e' um meio pratico de viajar no tempo. Se alguem se apoiava nessa ideia para fazer uma visita 'a Grecia Antiga ou aos primeiros instantes do Big Bang, e' melhor comecar a pensar em alternativas. E' exatamente nisso que trabalha Novello, 59.

O fisico ja' escreveu dois livros em que aborda a possibilidade de viajar de modo nao-convencional pelo tempo ("Os Sonhos Atribulados de Maria Luisa", voltado para o publico infantil, e "O Circulo do Tempo", para o publico adulto).

Ele aposta em um outro metodo, realizavel em laboratorio, para promover uma volta ao passado. Ms quem vai voltar no tempo nao e' ele, e sim um foton.

Em abril, o pesquisador publicou na "Physical Review D", uma publicacao irma da prestigiada "Physical Review Letters", da Sociedade Fisica Americana, um estudo teorico em que concebe como fazer essa particula minima da luz executar uma "curva temporal fechada" (codinome abstrato adotado pelos cientistas para falar de "viagem no tempo" com mais credibilidade, sem parecer que estao fazendo ficcao cientifica).

O segredo esta' em abandonar a gravidade, cuja manipulacao em laboratorio e' praticamente impossivel, e procurar a resposta em outras forcas.

Teorias em choque

Existem quatro forcas que garantem que o Universo funcione do jeito que funciona. A gravitacional, a eletromagnetica (propagada pelos fotons, cujo exemplo mais popular e' a luz), a nuclear forte (que mantem os protons grudados uns nos outros em um nucleo atomico) e a nuclear fraca (que causa o decaimento radioativo dos elementos).

As quatro operam em conjunto para produzir o mundo, mas na fisica elas estao separadas em duas teorias: a da relatividade, que explica muito bem a gravidade, e a do modelo padrao, que da' conta das demais. Entretanto, elas explicam essas forcas de modos bastante distintos.

O modelo padrao atribui a cada uma das forcas que ele explica (eletromagnetica, forte e fraca) uma particula portadora. Ja' a gravidade "e ' a unica forca que e' explicada por uma geometrizacao do espaco-tempo", diz Novello.

Essa interpretacao geometrica e' a tal da curvatura do espaco quadridimensional, que explica como a gravidade altera o ritmo do tempo e a direcao para a qual ele caminha.

As outras tres forcas nao permitem essa interpretacao geometrica, o que faz supor que elas nao possam interferir no andamento do tempo. Novello sugere que isso em geral e' verdade, mas nao necessariamente. "Ha' condicoes especiais em que a atuacao dessas forcas pode ser geometrizada.

Sao processos que imitam a gravitacao em sua interacao com um tipo especifico de particula", afirma o fisico. O modelo em que ele trabalha faz uso de forcas eletromagneticas extremamente calibradas para causar um efeito em um foton.

Esse efeito, que so' poderia ser aplicado a um tipo determinado de particula, o colocaria no rumo contrario ao de todas as outras coisas na dimensao temporal -direto para o passado.

Segundo ele, nenhuma magica ou superacelerador de particulas seria necessario. Apenas um solenoide (fio enrolado sobre um cilindro que induz um campo eletromagnetico pela passagem de corrente eletrica) devidamente preparado poderia realizar a proeza.

"Qualquer laboratorio, inclusive no Brasil, poderia tentar", afirma. Outros efeitos, como o de um buraco negro (fenomeno tipicamente gravitacional) feito com eletromagnetismo capaz de capturar fotons, tambem poderiam ser obtidos sem grandes equipamentos.

"Qualquer meio dieletrico poderia produzir esse efeito, aprisionando um foton. Seria como se ele sumisse do Universo." No caso do foton viajante do tempo, a observacao resultante do experimento tambem seria a do sumico da particula.

Durante todo o periodo da viagem para tras no tempo, "ele nao seria visto como um foton convencional, mas como uma particula de propriedades muito estranhas". Finalmente (ou para comecar, dependendo da referencia temporal), o foton desembarcaria no passado, com a mesma energia e as mesmas caracteristicas da particula que deixou o presente.

Mesmo que o efeito restrito da viagem (valida apenas para fotons) impeca o envio de pessoas inteiras ao passado, a simples troca de fotons entre futuro e passado poderia ter implicacoes muito serias.

Se fosse possivel comunicar informacoes por meio desses fotons, estaria aberta a possibilidade dos paradoxos temporais logicos, como aquele famoso em que o viajante temporal mata seu avo, o que automaticamente inviabiliza sua existencia e, por consequencia, sua propria volta ao passado, o que viabiliza de novo sua existencia, e assim por diante.

Nesse caso, nao seria possivel a alguem matar seu avo pessoalmente, mas talvez seja viavel transmitir informacoes para que um matador de aluguel faca o servico -o que, para todos os efeitos, da' na mesma.

Segundo Novello, eliminar a possibilidade de viagem no tempo apenas pelos paradoxos que ela traz e' um modo facil de resolver a questao -mas nao o mais preciso. "Costumamos usar, em nosso cotidiano, o dialeto newtoniano, que e' baseado na fisica de Newton, que por sua vez e' fisica do bom senso."

Efeitos como esse contradizem o bom senso, mas nao deveriam ser ignorados -afinal, eles nascem de teorias como a da relatividade, que ja' tem toneladas de provas em seu favor. O cientista considera sua ideia de induzir uma viagem no tempo sem usar a gravidade muito menos especulativa do que a tao falada teoria das supercordas, por exemplo.

"Eu ficaria muito contente se viesse um cientista para mim amanha e demonstrasse que eu estou errado, porque isso faz parte do jogo cientifico. O importante e' que a teoria pode ser testada", ele diz.

"Se alguem chega para mim e diz que o Universo tem 25 dimensoes, mas que nos so' podemos observar quatro, isso nao serve para nada. E' pura especulacao", afirma Novello, em alusao 'a ideia das supercordas, segundo a qual o Universo e' composto por dez dimensoes, das quais se experimentam apenas quatro.

O cientista diz que entende o ceticismo alheio. "Se alguem chegasse para mim cinco, dez anos atras e perguntasse se seria possivel fazer um foton voltar no tempo, eu responderia, muito provavelmente, que nao", afirma. "Hoje, se me perguntam isso, a resposta e', quase certamente, sim." (Folha de SP, 28/10)
==========================================